O aumento das doenças crônicas
As transformações sociais e econômicas das últimas décadas e suas consequentes alterações nos estilos de vida das sociedades contemporâneas – como mudanças dos hábitos alimentares, aumento do sedentarismo e do estresse –, e o aumento da expectativa de vida da população, colaboraram para o aumento da incidência das doenças crônicas.
Hoje, elas constituem um sério problema de saúde pública. Doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e doenças crônicas respiratórias são as maiores responsáveis pela mortalidade no mundo, representando 60% de todas as mortes¹. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, nas últimas décadas as doenças crônicas não transmissíveis tornaram-se as principais causas de óbito e incapacidade prematura.
As populações adulta e idosa são as mais afetadas pelas doenças crônicas
Doenças crônicas como hipertensão, doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e doença de Alzheimer se manifestam mais acentuadamente nas populações adulta e idosa. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), 75,5% dos idosos têm alguma doença crônica, enquanto nos EUA, 45% de toda a população tem ao menos uma. Entre as crianças, a asma é a doença crônica mais comum, afetando 300 milhões de pessoas mundialmente².
1Organização Mundial de Saúde. Disponível em http://www.who.int. Acesso em: 10 set. 2009.
2Sabate E, ed. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva, World Health Organization, 2003. Disponível em http://www.who.int/chp/knowledge/publications/adherence_report/en/index.html. Acesso em: 10 set. 2009.
Segundo a OMS, adesão ao tratamento “é a medida com que o comportamento de uma pessoa – tomar a sua medicação, seguir a dieta e/ ou mudar seu estilo de vida – corresponde às recomendações de um profissional de saúde.”
Infelizmente, em muitos casos os pacientes não aderem a recomendação médica. É o que ressalta uma publicação da OMS²: “não há como negar que pacientes têm dificuldade em seguir o tratamento recomendado. A baixa adesão (ao tratamento de doenças crônicas) é um problema mundial de magnitude impressionante. A adesão ao tratamento de longo prazo em países desenvolvidos é em torno de 50%. Em países em desenvolvimento as taxas são ainda menores”.
As razões para melhorar a adesão ao tratamento
De acordo com estudo da OMS¹, a adesão ao tratamento é uma ferramenta fundamental para o gerenciamento de doenças crônicas: “melhorar a adesão ao tratamento pode ser o melhor investimento para gerenciar as condições crônicas de maneira efetiva.” Por exemplo, um estudo conclui que a maior aderência ao tratamento da asma entre idosos acarretou em uma redução anual de 20% nas internações hospitalares.
Os benefícios da adesão ao tratamento se estendem aos pacientes, às famílias, aos sistemas de saúde e à economia dos países. Dessa forma, o paciente passa a ter a sua condição controlada, podendo, na maioria das vezes, manter uma vida normal e economicamente ativa. A família pode se dedicar a outras atividades e deixar de lado seu papel de cuidadora. O sistema de saúde economiza com a redução de internações emergenciais e intervenções cirúrgicas e a economia ganha com o aumento da produtividade.
O impacto das doenças crônicas na sociedade foi quantificado em estudo do Milken Institute da Califórnia: o custo à sociedade americana relacionado a sete doenças crônicas é estimado em US$ 1.3 trilhões por ano, dos quais US$ 1,1 trilhão representam custos com produtividade perdida. Estudo² sobre o impacto econômico dos casos de doença cardiovascular grave (DCV) no Brasil mostra a dimensão do problema: “Aproximadamente dois milhões de casos de DCV grave foram relatados em 2004 no Brasil, representando 5,2% da população acima de 35 anos de idade. O custo anual foi de, pelo menos, R$ 30,8 bilhões (36,4% para a saúde, 8,4% para o seguro social e reembolso por empregadores e 55,2% como resultado da perda de produtividade), correspondendo a R$ 500,00 per capita (para a população de 35 anos e acima) e R$ 9.640,00 por paciente”.
1Balkrishnan R, Christensen DB.Clinical Therapeutics, 2000. In: Sabate E, ed. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva, World Health Organization, 2003. Disponível em http://www.who.int/chp/knowledge/publications/adherence_report/en/index.html. Acesso em: 10 set. 2009.
2AZAMBUJA, Maria et al. Impacto econômico dos casos de doença cardiovascular grave no Brasil: uma estimativa baseada em dados secundários. Disponível em 10 set. 2009 em <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0066-782X2008001500005&script=sci_arttext>.
Em busca de uma solução
Governos, entidades, organizações não governamentais (ONGs) e universidades têm pesquisado e proposto soluções para a prevenção e controle das doenças crônicas. Em 2008, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou seu “Plano de Ação 2008-2013 para a Prevenção e Controle de Doenças Não-comunicáveis”, que tem entre seus objetivos reduzir o nível de exposição de indivíduos e da população em geral aos fatores de risco dessas doenças – entre eles o tabagismo, dietas não saudáveis e a falta de atividade física. O Centro para o Controle de Doenças Norte Americano (CDC) estima que a eliminação destes três fatores poderiam prevenir, apenas nos EUA, 80% dos casos de doenças cardiovasculares e derrame, 80% do diabetes tipo 2 e 40% dos cânceres.
O Plano de Ação da OMS também ressalta que melhoras no gerenciamento das doenças crônicas podem levar a reduções nas taxas de morbidade e mortalidade e contribuir para a melhoria dos desfechos clínicos. Esta questão foi amplamente discutida em outro estudo da OMS, de 2003. No documento “Adesão ao Tratamento de Longo Prazo¹”, a OMS discute os benefícios da maior adesão ao tratamento e recomenda ações em cinco dimensões: fatores relacionados ao paciente+, à terapia+, à condição clínica+, ao sistema de saúde+ e à condição sócio-econômica+.
Vale Mais Saúde (VMS): uma ferramenta para o controle das doenças crônicas
O VMS, programa de adesão ao tratamento de doenças crônicas criado pela Novartis, em 2004, visa auxiliar o paciente a gerenciar a sua condição médica. O programa atende três das cinco dimensões que afetam a adesão ao tratamento, conforme definido pela OMS: fatores relacionados ao paciente (1), à terapia (2) e à condição sócio-econômica (3). Estas são endereçadas pelo VMS por meio da oferta de materiais informativos sobre a doença e estilo de vida saudável (1), conscientização a respeito da necessidade do seguimento do tratamento prescrito pelo médico (2) e medicamentos sob prescrição médica a preços reduzidos (3). Esses fatores são descritos, não somente pela OMS como também pela literatura médica, como determinantes importantes da adesão ao tratamento pelo paciente. Por exemplo, artigo de revisão entitulado “Adesão ao tratamento entre idosos²” afirma que “o fator econômico adquire especial importância no acesso aos medicamentos por idosos.”
A questão da adesão ao tratamento deve ser abordada de um ponto de vista multidisciplinar, onde o paciente tem um papel importante a exercer. No estudo da OMS, esta conclui que programas de auto-gerenciamento oferecidos a pacientes com doenças crônicas melhoram a saúde dos mesmos e reduzem a utilização e custos do sistema de saúde: “Quando o auto-gerenciamento e programas de adesão ao tratamento são combinados com o tratamento regular e educação sobre a doença, foram observadas melhoras significativas nos comportamentos saudáveis, no tratamento dos sintomas cognitivos, na comunicação e no gerenciamento de outras deficiências³.”
1Sabate E, ed. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva, World Health Organization, 2003. Disponível em http://www.who.int/chp/knowledge/publications/adherence_report/en/index.html. Acesso em: 10 set. 2009.
2ALMEIDA, Helcia et al. Adesão a tratamentos entre idosos. Disponível em 15 de set. 2009 em http://www.fepecs.edu.br/revista/Vol18_1art07.pdf
3Sabate E, ed. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva, World Health Organization, 2003. Disponível em http://www.who.int/chp/knowledge/publications/adherence_report/en/index.html. Acesso em: 10 set. 2009.